O Prólogo pt1: Tigres, Dragões e Deveres

O farfalhar das brasas da fogueira era um ruido silencioso e o barulho do vento não seria suficiente para acordar alguém, mas o jovem mesmo assim despertou. Dormia embaixo de uma árvore, no gramado, concluiu. Quando o embaçado de seus olhos deu lugar a visão da fogueira, bem feita e com uma cobra assando no espeto, sua cabeça começou a tinir e as perguntas típicas de quando se acorda numa lugar completamente diferente de onde se dormiu surgiram em sua mente. De repente, “Boa noite, bela adormecida”, uma voz grossa e com um sotaque definitivamente de fora dos Estados Unidos disse. O jovem logo procurou o locutor, e conforme seus olhos subiam pela fogueira pode identificar um homenzarrão alto, de aparência descuidada e roupas simples. Ele estava em pé, com seus braços cruzados. E seu rosto não fazia sentido algum para memória alguma do jovem recém-desperto.
“Que porra é essa?” o Jovem enunciou. Sua voz era suave. “Bem, não é exatamente o que eu chamaria de um sonho, mas também não imagine que isso realmente está acontecendo”, disse o Homem Alto num tom calmo. “Ah então é uma pira isso?”, o Jovem não aparentava mais tanta confusão. “Não. O que isso é não é exatamente importante. Mas ouça, como já era de se esperar, há algo de importante para ser discutido hoje entre nós, filho”, respondeu o Homem Alto enquanto observava o Jovem se levantar. “Tá, que tal começar me dizendo quem é você?”, a voz do Jovem tinha toda a razão do mundo. “Bem, é o exato ponto em que essa conversa deve ter inicio. Eu fui alguém, algum dia, hoje não mais. Meu passado foi perdido e agora vive no presente de duas pessoas distantes. Não faz muito sentido para você agora, mas antes do amanhecer você já deverá compreender a situação. Contamos com isso”. A voz do Homem Alto era séria. “Contamos? Quem mais conta?”, o Jovem era um misto de confusão, tédio, sono e curiosidade. “Eu e as outras pessoas cuja existência depende do seu interesse pela sua própria existência e na capacidade de você influenciar as pessoas ligadas a você”, o Homem Alto descruzou os braços e começou a dar a volta na fogueira, enquanto o Jovem recuava alguns passos.
“Entenda, não há motivo para medo aqui. Esse é o seu plano mental, as coisas aqui acontecem numa mistura entre a forma que você deseja e o que é inaceitável para seus convidados. Por isso estamos conversando ao redor de uma fogueira e não nos drogando num beco”, disse o Homem Alto. O Jovem estaria muito mais desconfiado da situação não fosse a loucura em que sua vida havia se transformado nos últimos tempos. “Filho, você sabe o que Dever significa?”, perguntou o Homem Alto. “Sei, é aquela coisa de ficar fazendo uns treco chato porque os outros querem que você faça ao invés de fazer umas coisas legais”, respondeu o Jovem com um sorriso no canto dos lábios. “Não. Dever é o propósito maior que foi colocado sobre as suas costas e que só você pode carregar. Falha em cumprir com seu dever resulta em dor não só para você mas como para as pessoas ao seu redor. Filho, você tem um Dever bem grande, e um senso de Dever bem pequeno. Eu até entendo você ser uma criança sofrida e se esconder do seu Dever a vida toda, mas misericórdia não é desculpa para indolência. Antes disso tudo acabar, você vai conhecer pessoas que sofreram bem mais que você e carregam deveres bem maiores. Chegou a hora de você assumir seu fardo com esse e todos os mundos”. O Homem Alto falava com um certo tom de empolgação. O Jovem se afastou. “Para. Sério. Eu não quero essa coisa tá bom? Eu não pedi por isso, então para. Você disse que eu podia fazer o que eu quisesse aqui, eu quero que você vá embora”. O Homem Alto respirou fundo. “Não, eu disse que as coisas acontecem numa mistura entre a forma que você deseja e o que é inaceitável para seus convidados, mas você não pode me expulsar ou sair daqui antes que eu assim deseje, pois esse plano mental existe justamente para que eu me comunique com você, mas isso não é importante. Chegou a hora de você aprender um bocado de coisas, então escute, filho”, o Homem Alto então pigarreou.
“Escutar, tá. Eu escuto então”, disse o Jovem visivelmente contrariado. “Como eu dizia antes, você tem um Dever. Eu tinha um, você tem um, todos temos um. São designados por forças além da sua compreensão, mas eles sempre nos empurram para um mesmo objetivo comum”, o Homem Alto falava bem sério. “E que objetivo é esse?”, perguntou o Jovem. “Melhorar o mundo. O mundo é seu mundo, as pessoas nele são o seu povo. Você pode viver por você hoje, ou ajudar a construir o amanhã para todos. O motivo das coisas estarem simplesmente erradas hoje em dia é a falta dos seres humanos no cumprimento de seu Dever. Poucas pessoas o cumprem, nem sempre quando isso acontece o mundo melhora. É preciso que outras pessoas com Deveres interligados façam a sua parte para que o bem maior possa ser alcançado”, o Homem Alto abriu os braços, o jovem notou então seu fisico exuberante e também as diversas cicatrizes em seu corpo. De repente suas mãos voaram em direção uma da outra, estalando uma palma que fez o Jovem pular. “Isso é um Dever quando é realizado. São forças opostas e independentes entrando em movimento até colidirem e provocarem um efeito supostamente distinto de sua função até hoje no mundo”, o Homem Alto sorria. “Tá, e qual é o meu dever então?”, perguntou o Jovem sem lá muito interesse. “Seu Dever jaz além da fronteira entre dois mundos. Seu Dever, assim como o de todos os envolvidos nele, é possibilitar que o Tigre sobreviva a seu encontro com o Dragão no deserto. A sua tarefa nesse Dever é relativamente simples porém crucial para a realização desse Dever”, concluia o Homem Alto. “Olha cara, eu não faço nem idéia de quem é você, quem é esse Tigre e quem é esse Dragão, muito menos tô afim de ir prá um deserto. Que tal você me explicar as coisas devagar, e depois nós partimos prá a minha tal tarefa nesse Dever?”, o Jovem então se assustou. Desde quando havia começado a ser organizado? Não fazia sentido, como tudo mais naquela cena.
“Otimo. Vamos começar pelo principio então. Você deve estar familiarizado com a idéia de realidades paralelas, correto? Não sei como você vê essas coisas, mas a idéia de um mundo onde algo aconteceu e algo não aconteceu faz sentido prá você?”, perguntou o Homem Alto enquanto procurava algo pelos arredores. “Tá, mais ou menos, eu vejo as linhas. Por acaso você é de uma dessas outras linhas?”, perguntou o Jovem. “Sim e não. A coisa é mais complicada que uma simples linha. Eu existia nessa realidade, mas devido a um embuste do Dragão eu fui tragado para fora dela junto com o meu Dever. O que nos leva diretamente ao seu Dever agora. Existem forças além da sua compreensão que designam Deveres para os humanos, e existem forças mais compreensíveis que personificam alguns Deveres de tal forma que passam a ter um peso maior nos mundos em que habitam. O Dragão e o Tigre em questão são duas Forças da Natureza em embate. Se o Tigre não cruzar o Deserto, tudo será perdido”, disse o Homem Alto. “Por que?” perguntou o jovem.

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“Porque o Dragão é a Destruição. Ele é capaz de apagar as coisas, assim como me apagou desse mundo. Mas ele não pode apagar o que é dito aqui, nem um Dever maior que a loucura dele. Tudo que temos é a esperança de que nossos corações serão maiores que a voracidade dele”, disse o Homem Alto.


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