A Janela para o Parque

Hoje acordei sem ela. Seu lado da cama estava vazio, gelado. Deve ter levantado faz já algum tempo. Tudo bem, é perdoavel. Ontem foi um dia duro conosco, mas tudo deu certo. Fecho os olhos, ainda ouço aquela musica. É quando me dou conta que ela não está de fato aqui. Nem agora, nem antes. Foi só um sonho. Foi belo, lindo, mágico, efêmero, ilusório, como todo sonho. A realidade só se despe de seu véu diante de meus olhos alguns minutos após uma xícara de café bem forte e bem doce. Tudo é cinza, sujo, duro, verossímil e fedido. Me pergunto a quanto tempo não tomo sequer um banho. Pouco importa. Não tem ninguém aqui prá sentir meu cheiro, nem eu mesmo: quando se mergulha, respirar leva ao afogamento. E se afogar numa xícara de café deve ser bem triste, mas não importa. O que importa é minha incapacidade em me focar na justa xícara de café e aproveitar cada segundo dela. Eu costumava acreditar que a vida devia ser assim, uma coisa de cada vez. Se eu realizar cada ação do meu dia com foco e esforço, tudo sairia bem, tudo ficaria certo. Mas eu troquei os pés pelas mãos, e ela foi embora. Prá sempre. Agora não adianta mais se preocupar com cada uma das coisas prá que tudo dê certo; as coisas já foram pro ralo, ela morreu, e fui eu quem entregou a arma ao carrasco e– o café acabou. Me levanto e deixo a cozinha do exato jeito que está. Quem sabe o meu lado que me detesta assume o controle e corre arrumar as coisas alguns momentos antes d’eu criar vontade de limpar tudo, só prá me frustrar. Me dirijo ao banheiro, não encontro minha escova de dentes. Tanto faz. Vejo uma embalagem de Listerine com algum produto dentro e– me lembro que ela comprou isso prá mim. Esquece isso. Despejo o liquido azul até a metade em sua tampa, e faço o boxexo. Minha lingua arde. Cuspo, fica um gosto estranho mas familiar. Vou até a janela, a vista continua igual. Lá está o parque onde nos vimos pela primeira vez, na época em nem tinha idéia do que ia acontecer. Foi tudo tão doido, tudo tão rápido. Num dia eu era um estudante, no outro eu corria de um lado pro outro com um bando de malucos explodindo coisas. E ela estava junto. Hoje o parque está mais vazio, dificilmente alguém se atreve a entrar nele a essas horas – não é socialmente aceitável estar no parque num domingo à tarde. Há pessoas lá, ninguém se parece com ela, não há nenhum dos nossos lá. Fecho a janela e dou as costas. Me pergunto por quanto tempo esse sentimento lúgubre vai ficar. Eu devia simplesmente levantar a cabeça, seguir em frente. Mas ir em frente quando se está na beira do abismo é uma péssima idéia. O pior, não consigo mudar de direção, era ela quem tinha o controle, e levou as coisas pro lado que queria. E agora ela morreu, e eu fiquei aqui, com esse gosto familiar na boca que não é o dela, mas lembra muito. Olho novamente o parque por entre os vidros da janela fechada, sinto vontade de mandar uma bola de fogo e vê-lo queimar. Tudo me lembra ela, e tudo só está aqui prá me mostrar que ela não está. Que ela foi embora e deixou todas essas coisas comigo, todas essas coisas que mesmo simples, mesmo toscas, eram dela e eram lindas, eram dela e me faziam feliz. É claro, eu sou o culpado, eu sempre soube quem ela era e o que ela queria fazer, mas eu me iludi achando que as coisas podiam ser diferentes. Mesmo assim– chega. Vá se ocupar, Thomas. Vou até o quarto, me sento na cama, vejo as primeiras edições de Sandman na estante. Alcanço as seis primeiras da pilha. Abro a primeira da pilha, vou lendo o Sonho conversar com a Morte. A Morte. Que ironico. E que merda. Tem alguém de sacanagem comigo hoje. Ela era barabbi, ela tentou matar seus amigos, ela tentou matar você. Pare de achar que a sua vida vale menos que a dela só porque você errou uma vez na– cale a boca. Eu não sou idiota a ponto de achar que o fim que ela teve foi errado. Ela merecia tudo que foi feito com ela quando a verdade veio a tona, toda dor, todo sofrimento. Mas isso não quer dizer que eu não sinta a falta dela.E o que me deixa mais puto, que me deixa mais revoltado, é que tudo fica me lembrando dela, que tudo fica me dizendo que ela não está mais aqui, mas que as coisas dela ficaram. É como um choque de retorno, é a realidade filha da puta me sacaneando sempre e onde pode. Preciso me distrair. Tento contactar o Sifu, mas ele não está. Bosta. Percebo que as edições de Sandman estão na ordem oposta, e abro a edição mais próxima da primeira – edição 3. John Constantine. Porra, o quarto dele se parece com o meu, exceto por ser bem maior. E por ele saber onde guardou a escova de dentes dele. Sigo lendo a revista. “Já teve um daqueles dias em que algo parece estar tentando lhe contar sobre alguém?”. Tá bom, uma coisa é ser lúgubre e ter baixos níveis de seratonina e altos níveis de cafeína no corpo. Outra coisa é ser um mago e ser burro o suficiente prá deixar passar as mensagens do Destino até ter que receber uma mensagem clara dessas. Precisou um outro mago vir me dizer o que estava acontecendo. Que vergonha, Thomas. Gargalho. Quer saber, preciso de um banho. Pego a primeira toalha que encontro pela frente, não tenho certeza se ela é minha, tanto faz. A agua é morna, acalma os nervos como se fosse um cigarro. Não que eu fume, entretanto. Já me basta um vício na vida. Me ponho a pensar porque tudo me lembra ela. Porque essa sensação de ter dormido com ela, ao ponto de ter ficado com aquele gosto na boca? Se eu entendi bem a mensagem de John, algo está tentando me contar sobre alguém. Vamos lá, tente ver além do óbvio. Eu não ia precisar de todo esse esforço prá sentir falta dela, eu podia ficar largado num deserto que ia perceber isso. Porque a sensação de ter dormido com ela…? Simples. É porque ela não foi embora. Talvez tenha morrido, sim, mas as pessoas voltam. O Avatar é eterno. Numa nova encarnação, talvez. Mas os Nephandi voltam sempre como Nephandi. Grandes bosta. Se há um jeito de perverter o Avatar, também há de existir um jeito que o concerte. Eu não sou burro, vou dar um jeito de descobrir como se reconstrói um Avatar, deixá-lo lindo e inteiro novamente. Porthos dizia que o intervalo de tempo entre uma encarnação e outra costumava ser completamente aleatório, mas existiam formas de se estimá-lo. Ótimo. Amanhã irei consultar aquela Oradora da outra Cabala, ela deve me conseguir algumas respostas. Quanto a mim, preciso estudar. Descobrir uma forma de consertar as coisas. Ela vai voltar, e quando o fizer, eu vou estar aqui. Passe o tempo que for, afinal, o próprio Porthos costumava dizer que já tinha mais de 600 anos mesmo.
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Mas Porthos era doido de pedra. E Porthos morreu, e deixou tudo inacabado e fudido prá próxima geração resolvar. Ah, merda. Lá vamos nós denovo.


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